Celulite intensa: por que o tratamento precisa ser individual?
O rótulo que mais circula entre quem convive com depressões profundas na pele não consta na escala que deu origem a ele. A graduação clínica da celulite nasceu em 1978, num artigo dos alemães Nürnberger e Müller publicado no Journal of Dermatologic Surgery and Oncology, e para de contar no terceiro degrau.
O quarto apareceu depois, fora do texto original, e nunca recebeu validação histológica suficiente para ser tratado como estágio próprio.
A distância entre o vocabulário da internet e o do consultório pareceria irrelevante se não tivesse consequência prática. Tem. Enquanto a paciente procura um número que resuma o caso dela, o médico avalia cinco variáveis separadas, cada uma com peso próprio na escolha do procedimento.
Duas mulheres podem receber a mesma classificação geral e sair da consulta com planos de tratamento que quase não se cruzam.
De onde veio a numeração que todo mundo repete
Nürnberger e Müller batizaram o próprio artigo de forma provocativa: “So-called cellulite: an invented disease”, algo como “a chamada celulite: uma doença inventada”.
A escala proposta por eles avalia a visibilidade das ondulações em três situações: com a pele em repouso, durante a contração muscular e sob pinçamento. O grau zero corresponde à ausência de alterações, enquanto o grau três descreve depressões evidentes mesmo com o corpo em repouso.
O modelo sobreviveu por quase cinco décadas porque é rápido de aplicar. Também envelheceu mal em um ponto específico: tenta resumir em poucos níveis um quadro que combina profundidade das depressões, quantidade de irregularidades, textura da superfície e flacidez da pele. Essas características podem ter origens distintas e responder de maneira diferente ao mesmo tratamento.
Quando alguém pergunta se celulite grau 4 tem cura, geralmente não está preocupado com a classificação usada nos estudos. Está tentando descrever depressões muito marcadas, visíveis em qualquer posição, áreas endurecidas ao toque, relevo irregular e, em alguns casos, sensibilidade local.
A expressão “grau 4” acabou sendo usada popularmente para representar uma forma mais intensa do quadro, embora não faça parte da escala original de Nürnberger e Müller, que termina no grau três.
A alteração percebida pela pessoa é concreta. O que não é preciso é o nome emprestado de uma classificação que não previa esse quarto nível.
Cinco critérios, uma nota só, e o que ela esconde
A Sociedade Brasileira de Dermatologia adota hoje outra referência: a Cellulite Severity Scale, criada pelas dermatologistas brasileiras Doris Hexsel, Camile Hexsel e Taciana Dal’Forno e publicada em 2009 no Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology.
A escala é fotonumérica, ou seja, o avaliador compara a pele da paciente com um conjunto padronizado de imagens em vez de confiar apenas na impressão visual.
São cinco itens pontuados de zero a três: número de depressões evidentes, profundidade dessas depressões, aparência morfológica das alterações de superfície, grau de flacidez e a própria classificação de Nürnberger e Müller, que entra como um dos componentes. A soma vai de zero a quinze pontos e separa os quadros em leve (1 a 5), moderado (6 a 10) e grave (11 a 15).
O detalhe que muda tudo está na aritmética. Oito pontos podem vir de depressões muito profundas em uma paciente com pele firme. Os mesmos oito pontos podem vir de flacidez acentuada em outra, com depressões rasas. As duas recebem o carimbo de celulite moderada. O tecido delas não tem quase nada em comum.
Duas pacientes, a mesma pontuação, caminhos separados
A celulite se forma quando a gordura da hipoderme se projeta para cima entre os septos de tecido conjuntivo, enquanto essas mesmas traves puxam a pele para baixo.
Nas mulheres, os septos costumam se dispor perpendicularmente à superfície, o que favorece a herniação. Nos homens, a disposição inclinada cria compartimentos menores e dificulta a projeção.
É por isso que a lipodistrofia ginoide, nome técnico da condição, atinge cerca de 95% das mulheres depois da puberdade, segundo a SBD, e raramente aparece em homens sem desequilíbrio hormonal associado.
Quando o problema dominante é a tração dessas traves, o alvo é mecânico. Quando o problema dominante é a perda de sustentação da derme, o alvo é a produção de colágeno.
“Tratar o primeiro caso com estímulo de colágeno gera pouca diferença visível. Tratar o segundo com técnicas voltadas às traves resolve um problema que a paciente nem tinha”, ressalta Dra. Mariana Cabral, dermatologista na capital goiana.
O que a subcisão alcança e onde ela para
A subcisão foi descrita como tratamento para celulite por Doris Hexsel e Rosemarie Mazzuco em artigo publicado no International Journal of Dermatology em 2000.
O procedimento rompe as traves fibrosas que ancoram a pele, permitindo que a área deprimida suba e o relevo se nivele. Funciona bem em depressões bem marcadas e delimitadas, aquelas que a paciente consegue apontar com o dedo.
Não é uma técnica universal. Em pele com flacidez importante e depressões rasas, o rompimento das traves entrega pouco. A indicação depende da leitura do que predomina, e essa leitura só existe depois do exame clínico.
Firmeza é outro problema, com outro endereço
Radiofrequência, ultrassom microfocado e bioestimuladores injetáveis atuam por caminhos distintos, mas convergem no mesmo objetivo: aquecer ou estimular a derme para que ela produza colágeno novo e ganhe sustentação.
Pele mais firme drapeia menos e disfarça parte das irregularidades. O ganho é real e tem prazo de validade, porque colágeno se degrada com o tempo.
A drenagem linfática ocupa outro lugar na conversa. Reduz sensação de peso e inchaço em quem retém líquido, melhora o conforto, e não alcança as traves fibrosas.
Cremes atuam na hidratação e na textura da camada superficial. Nenhum dos dois chega ao alvo que produz o furinho.
Quando a melhora existe e a nota não muda
Um estudo publicado na revista Surgical & Cosmetic Dermatology avaliou trinta mulheres submetidas a sessões de campo eletromagnético focado de alta intensidade na região glútea, divididas em dois grupos com oito ou doze aplicações.
O resultado é instrutivo pelo que revela do método: a aparência global melhorou, a satisfação das pacientes foi alta, e a maioria continuou classificada exatamente na mesma faixa da Cellulite Severity Scale ao fim do protocolo.
Duas leituras cabem aí. A primeira é que a escala é conservadora e exige mudança expressiva para registrar avanço. A segunda é que o número não conta a experiência de quem olha para o próprio corpo no espelho.
Ambas reforçam o mesmo argumento: usar a pontuação como sentença é um erro de leitura.
A parte que nenhum aparelho assume
Hereditariedade pesa e não se negocia. O restante da lista, sim. Sedentarismo reduz massa muscular e piora o contorno. Tabagismo prejudica a microcirculação e a qualidade do colágeno.
Oscilações de peso alteram o tônus e deixam o relevo mais evidente. Excesso de ultraprocessados favorece o acúmulo de gordura e um estado inflamatório de baixo grau.
Treino de força aparece com destaque nas orientações porque músculo funciona como moldura da pele. Sem ele, qualquer resultado obtido em consultório perde tração ao longo dos meses.
Esse é o motivo pelo qual protocolos de manutenção não são invenção comercial: a condição é crônica e multifatorial, e nenhum procedimento isolado interrompe os fatores que a alimentam.
O incômodo que não entra na fotografia
Em 2011, o mesmo grupo de pesquisadoras publicou na Surgical & Cosmetic Dermatology o Celluqol, instrumento criado para medir o impacto da celulite na qualidade de vida.
A existência de uma ferramenta desse tipo diz algo sobre o que a régua fotográfica deixa de fora. Duas pacientes com pontuação idêntica podem ter graus muito diferentes de sofrimento, e o plano de tratamento razoável leva isso em conta.
O contexto ajuda a entender o tamanho da demanda. O setor de beleza e cuidados pessoais representa cerca de 2% do PIB brasileiro e coloca o país como terceiro maior mercado consumidor do mundo, conforme dados da ABIHPEC.
Uma parcela relevante desse consumo vem de quem tenta resolver por conta própria, com produtos comprados no balcão, um quadro que exige diagnóstico.
A resposta curta é desconfortável
Não existe procedimento que devolva a pele ao estado anterior e o congele ali. Celulite não é doença, não tem cura no sentido estrito, e qualquer promessa nesse sentido merece desconfiança. O que existe é redução mensurável de depressões, ganho de firmeza e um relevo mais uniforme, sustentado por hábitos e manutenção.
Trocar um número por uma leitura de cinco variáveis parece preciosismo técnico. Na prática, é o que separa quem repete sessões de um aparelho que nunca vai atingir seu problema de quem trata aquilo que de fato produz o desenho na sua pele.
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